terça-feira, 20 de maio de 2014

KVR-One Synth Challenge

No longínquo último post do blog, em 20 de novembro de 2013, comentei sobre a importância da música em minha vida, servindo até mesmo como terapia. De lá para cá muita coisa aconteceu neste aspecto, minha página no Soundcloud vai ganhando mais visitas e seguidores com o passar do tempo, e vamos que vamos.

Mas, de longe, a melhor coisa que surgiu neste período foi o KVR-One Synth Challenge, vulgo KVR-OSC para os íntimos. É um desafio mensal do site KVR Audio, um dos mais importantes do mundo em relação a música digital, plugins, soft synths e afins.

E, afinal, o que é o tal do KVR-OSC? Como o próprio nome diz, é uma competição na qual os participantes devem criar uma música usando apenas um sintetizador, escolhido pelos organizadores. Todos os sons, incluindo bateria, devem ser originados do sintetizador (nada de samples), e efeitos de modulação como chorus, phaser, flanger, etc não são permitidos.

O grande barato do KVR-OSC é forçar os competidores a tirar o máximo possível do sintetizador escolhido, dentro de um curto período de tempo. Com isto, ao invés de ficar criando um monte de mini-projetos de 30s que nunca dão em nada, cada pessoa deve fazer das tripas coração para terminar a música e, o mais importante, tentar deixá-la com a qualidade mais profissional possível. Além disto, é uma comunidade muito legal, cujos usuários (com raras exceções) procuram se ajudar e se incentivar, elogiando e criticando quando necessário, o que é ótimo para quem quer melhorar mas não sabe exatamente onde.


Comecei a participar do KVR-OSC na edição OSC Special CM, e até o momento, foram 5 edições que contaram com a humilde colaboração deste webmaster-preguiça. :)

Devem estar se perguntando: "Tá bom, Marcelo, tudo muito lindo, mas e daí?". Bom, só queria compartilhar a satisfação de, no último concurso, eu ter feito uma parceria muito, muito boa com um amigo da Austrália, Ben Hehir (H-man / Hokey) e, melhor ainda, de nossa música ter ficado em 3º lugar numa edição de altíssimo nível. :)  Para quem quiser conferir, o link é https://soundcloud.com/hehirman/h-man-and-animehaus-theearthlings

Ainda há muito o que aprender, mas é um bom sinal de que devo estar fazendo alguma coisa interessante na área. :P



Animes? Pois é, continuo devendo, gente... por enquanto, não vou prometer nada, senão me dará aquela preguiça, sabe... uaaaaahhhh.... ZZZZZZ....  :)

Um grande abraço a todos!

Marcelo Reis

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Música, a verdadeira paixão

Caros amigos,

Depois de um longo, tenebroso e quente inverno, finalmente o blog é atualizado. Infelizmente, ao contrário do que muitos poderiam esperar, a postagem não diz respeito a resenhas de animes, jogos ou afins.

Enfim, vamos por partes.

Primeiramente, quero pedir desculpas a todos que postaram mensagens aqui no Glodosbora desde a última atualização. Afinal, nesta longa ausência, eu não respondi a nenhum dos comentários deixados aqui, o que é imperdoável. Tão logo esta postagem esteja no ar, resolverei esta pendência e responderei a cada uma destas mensagens.


Bom, na última postagem, no dia 05 de junho, eu havia comentado sobre minha nova empreitada, a Adagium Games, super entusiasmado com o que poderia acontecer neste campo. A verdade é que, por mais que eu seja apaixonado por jogos, especialmente aqueles da geração 16-bit, e sempre tenha me envolvido de alguma forma com a produção ou resenhas de games (para quem não se lembra, fui o criador do saudoso Universo PC-ENGINE - http://web.archive.org/web/20120508010942/http://www.pcengine.com.br/), cuidar de praticamente tudo sozinho na criação de um jogo é um negócio bem diferente.


Durante a produção do "Nuclear K-Boing", fiquei tão envolvido e atolado com programação, criação de fases e gráficos, que nem cheguei a fazer aquilo que sempre foi minha grande paixão: compor e produzir músicas, algo que faço há pelo menos 25 anos, desde os bons tempos do MSX e do Amiga 500.


Para não me alongar muito, só queria dizer que a outra empreitada chamada Adagium Games está em suspenso por tempo indeterminado. Vou preferir continuar com meu trabalho como tradutor, e criar minhas músicas sem a preocupação de que eu possa usá-las algum dia em algum projeto, quer seja no mundo dos jogos ou não. Música é minha terapia, minha maneira de extravasar as tensões da rotina diária e expor meus sentimentos em forma de melodias, harmonias e ritmo.


Não se preocupem, este blog não se tornará um divã aberto ao público, do qual despejarei lamúrias na cabeça de vocês de tempos em tempos, hehehe. Farei o possível para tentar escrever novas resenhas, já que a escrita é um complemento à música em relação ao meu bem-estar. Sem contar que já estou com saudades de compartilhar com vocês opiniões a respeito de tantas animações bacanas que existem por aí.

Para quem quiser conhecer um pouco deste meu lado musical, minha página no Soundcloud é https://soundcloud.com/animehaus. Espero que gostem. ^_^

Um grande abraço a todos, e obrigado pela paciência!

Marcelo Reis

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Adagium Games: Uma Nova Empreitada

Pessoal, antes de mais nada, foi mal a demora em atualizar o site, mas logo explicarei melhor o principal motivo por trás do "chá-de sumiço".

Imagino que muitos tenham ficado decepcionados com minha demora para realizar novas atualizações, e com toda a razão. A verdade é que estes últimos meses foram momentos de muita reflexão em relação ao meu futuro pessoal e profissional. E após pensar e refletir bastante, resolvi que talvez fosse minha última oportunidade de me arriscar naquilo que sempre foi minha grande paixão: o mundo dos games.


Tudo ainda está num estado bem embrionário, mas de qualquer forma, gostaria de compartilhar com todos o início de meu novo projeto: Adagium Games. Por enquanto, nosso grupo ficará focado apenas na produção de games mais simples em HTML5 e, talvez, apps para Android e iOS. Mas, num futuro próximo, acredito que estaremos em condições de alçar vôos maiores, dentro de um universo 100% indie, é claro.

Se quiserem conhecer o site, o link é http://www.adagium.com.br. Por enquanto, apenas em inglês, mas logo colocarei uma versão em português também. E, claro, não deixem de ver o demo de nosso primeiro jogo, "Nuclear K-Boing", no link http://www.marketjs.com/game/nuckboing.

Ainda não sei quando colocarei uma nova resenha no Glodosbora, já que este processo de produção de jogos é cansativo, toma tempo... mas é recompensador, sem sombra de dúvidas!

Um grande abraço a todos!

sábado, 2 de março de 2013

Freedom (OVA)


Ano: 2006
Diretor: Shuhei Morita
Estúdio: Sunrise
País: Japão
Episódios: 07
Duração: 6 x 25 min e 1 x 48 min
Gênero: Aventura / Romance / Sci-Fi


Série de OVAs produzida pela Sunrise e contando com a colaboração de Katsuhiro Otomo e Shuhei Morita, "Freedom" é o tipo de obra que, pelo menos no papel, tinha tudo para ser um anime memorável. Afinal, Shuhei Morita foi o responsável por "Kakurenbo", utilizando uma técnica de "cell-shading" que deu uma qualidade técnica notável a uma animação totalmente caseira. Katsuhiro Otomo dispensa comentários: basta assistir a "Akira" para ver do que ele é capaz, especialmente no tocante a projetos mecânicos detalhados e animação impecável. Juntar dois estilos tão distintos e ainda contar com a produção da Sunrise, notória por simplesmente arrebentar em animes baseados em mechas, espaço sideral e afins... realmente difícil segurar o entusiasmo!

Uma base lunar foi construída com o intuito de ser um ponto de partida para a futura colonização de Marte. Mas a queda de uma estação espacial na Terra levou à deterioração irreversível do meio-ambiente, e a guerra por recursos acabou ocasionando o fim da civilização: a Terra virou um planeta morto. A base lunar se transformou em colônia, de modo a garantir a sobrevivência da humanidade, e recebeu o nome de Projeto Éden.

100 anos depois, os humanos vivem dentro de seis imensos domos na Lua, numa utopia altamente controlada, de modo a manter os humanos sempre supervisionados, levando suas vidinhas calmas e estáveis de sempre. As pessoas devem se recolher aos seus dormitórios em horários pré-determinados, todos usam pulseiras eletrônicas que servem ao mesmo tempo como intercomunicadores e rastreadores, e câmeras de vigilância controlam cada cantinho da colônia.

É neste ambiente que vive Takeru, jovem de personalidade forte que, para fugir do tédio reinante em Éden, participa de corridas clandestinas de motos semelhantes a "hovercrafts". Acompanhado pelos amigos Kazuma e Bismarck, responsáveis também por darem os ajustes necessários à sua moto antes das corridas, Takeru usa sempre uma jaqueta branca de astronauta com o emblema do Projeto Apolo, sem imaginar que este projeto havia sido responsável por levar os pioneiros à superfície lunar, praticamente 300 anos antes.

Prestes a tornarem-se cidadãos plenos, os jovens precisam escolher uma carreira para toda a vida. E a cada pequeno delito cometido, como as tais corridas de moto, devem realizar "trabalhos voluntários" pelo bem da colônia, geralmente envolvendo a manutenção externa dos domos. E é numa destas missões externas que Takeru recebe uma mensagem inesperada, gerando milhares de indagações na mente do jovem sobre a verdade por trás das origens de Éden e da destruição da Terra.


"Freedom", como era de se esperar, usa a mesma técnica de "Kakurenbo" mas, desta vez, aliada ao excelente desenho de personagens e projetos mecânicos ultradetalhados de Katsuhiro Otomo. Muita coisa em "Freedom" lembra demais alguns aspectos de "Akira", como as corridas de motos entre gangues rivais, os cenários futuristas das cidades, os ambientes subterrâneos, e até mesmo algumas partes da trilha sonora, com percussões similares à utilizada por Geinoh Yamashirogumi na animação de 1988. Os efeitos sonoros são impressionantes, bem mixados e dão muita força ao que se passa em cena, em especial nas cenas de ação. Mesmo não tendo um orçamento tão alto quanto o de um longa-metragem, "Freedom" faz bonito nos aspectos técnicos.

Infelizmente, "Freedom" nao alcança a mesma excelência em termos de conteúdo. O início é promissor, a amizade entre o rebelde Takeru, o ponderado Kazuma e o medroso mas inteligente Bismarck é sincera e convincente, e dá para compreender perfeitamente a necessidade dos jovens de fugirem do tédio e do marasmo, e correrem atrás de seus sonhos. Mas o que começa com um pé na realidade logo se torna uma história totalmente implausível e manipuladora, com um excesso de altruísmo e melodrama, um roteiro repleto de inconsistências e diálogos expositivos, além de um péssimo equilíbrio entre dramalhão, comédia pastelão e ação exagerada.

Exagero? Bom, o que dizer de um jovem que resolve viajar da Lua para a Terra porque se apaixonou por uma garota que viu em uma foto? Ou de uma sociedade super controladora, capaz de monitorar toda a superfície da Terra a milhares de quilômetros de distância, mas que não sabe da existência de gigantescos foguetes escondidos dentro da "Freedom", uma corporação particular que seria a encarregada da colonização de Marte? Ou dos heróis que caem nas "ciladas" mais toscas da história, incapazes de enganar até mesmo um moleque babão? Ou a possibilidade de um rebelde e ex-detento se tornar, em menos de 3 anos, um membro da mais alta hierarquia e merecedor de confiança irrestrita dentro de uma sociedade dita "científica" e "inteligente"? Ou frases como: "Estamos levando a amizade, o amor e o espírito!" e "Todos que escaparam do tédio, morreram"?

Ainda daria para me alongar bastante nisto, mas prefiro ir logo ao que, disparado, é o fator mais irritante em "Freedom": A GRITARIA!!! Imaginem pessoas que GRITAM E GRITAM E GRITAM SEM PARAR por qualquer coisa! Se estão fugindo, GRITAM PRA FUGIR MAIS RÁPIDO! Se estão animados, GRITAM PARA DEMONSTRAR ANIMAÇÃO! Se estão apaixonados, GRITAM PARA DEMONSTRAR O SEU AMOR! Se estas palavras em maiúsculas te incomodaram, imagine o que é ouvir esta gritaria durante quase 4h de série? Isto, sim, dá vontade de pular pela janela, gritando SOCORRO!!!!!




Não digo que "Freedom" seja uma porcaria como "Sin, the Movie" ou "Nazca", longe disto. A história tem momentos interessantes e até emocionantes que, infelizmente, são estragados pelos defeitos citados acima. Vale a pena assistir a esta série pelo menos pelo visual, que é realmente impressionante, mas tendo em mente que o resultado final em termos mais abrangentes decepciona bastante. Ah, claro: usem protetores de ouvido quando forem assistir, para evitar surdez precoce com toda a gritaria.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Curtas sobre Curtas #03


Enquanto retorno aos poucos ao universo dos animes e preparo novas resenhas com calma, segue abaixo mais um post da série "Curtas sobre Curtas".



A GENTLEMEN'S DUEL

Animação norte americana produzida em 2006 pelo Blur Studio, um estúdio geralmente mais envolvido em efeitos visuais para filmes (Scott Pilgrim, Battleship, Avatar) e sequências cinemáticas para videogames (Marvel: Ultimate Alliance, Dark Souls II). Ainda assim, o Blur Studio de vez enquando se arrisca nos curtas, inclusive tendo sido indicado ao Oscar de Melhor Curta de Animação em 2004 com "Gopher Broke".

Mas o assunto agora é "A Gentlemen's Duel". Nesta hilária e surreal obra, um cavalheiro inglês e outro francês, que se acham lindos e maravilhosos, disputam a atenção de uma bela aristocrata. A coitadinha acaba "pagando o pato" e sofrendo os efeitos colaterais desta verdadeira briga de pavões. A coisa vai ficando cada vez mais séria, se encaminhando para um duelo final inesperado e de proporções inimagináveis.

Tecnicamente, "A Gentlemen's Duel" é um primor. Desde o início é possível perceber que o Blur Studio sabe muito bem o que faz, pela riqueza de detalhes nos cenários, personagens bem modelados e animação super fluida. O enredo apresenta situações cada vez mais absurdas, e as ótimas dublagens tornam as cenas em si ainda mais cômicas, especialmente porque há uma troca constante de xingamentos e imprópérios entre os dois homens ao longo do confronto.

"A Gentlemen's Duel" não muda a vida de ninguém, mas é muito engraçado e possui cenas que impressionam demais pela qualidade técnica, especialmente durante o tal duelo.


DUM SPIRO

Com um título baseado no dito latino "Dum spiro, spero" (algo como "enquanto eu respirar, há esperança"), "Dum Spiro" é uma das seis animações da turma de formandos da ESMA no ano de 2012. O logotipo da escola surge bem no início, em meio a círculos que lembram muito a abertura dos desenhos antigos dos "Looney Tunes". Até a música e os efeitos sonoros nos remetem imediatamente às obras enlouquecidas de Chuck Jones e Robert McKinnon, produzidas para a Warner, que são a inspiração óbvia para este curta-metragem ensandecido.

No período do Império Romano, um soldado deve levar uma mensagem importantíssima de César a uma tribo de bárbaros, acampada do outro lado da floresta. A mensagem poderá mudar todo o curso da batalha, e deve ser entregue custe o que custar. Mas um urso de avental e apaixonado por flores será um obstáculo quase intransponível para o pobre soldado.

"Dum Spiro" utiliza a técnica de "cell-shading" para dar um tom de animação 2D ao ambiente 3D. Tudo nesta obra é exageradíssimo, os personagens são super expressivos, e a cada momento pintam situações e engenhocas mais e mais bizarras em cena, tudo para que a mensagem seja entregue de qualquer maneira. "Dum Spiro" lembra demais os desenhos em que o Coiote tenta roubar ovelhas, mas toma muita pancada do cão pastor... dá até dó do mensageiro, coitado!

Com escolas de qualidade como a ESMA, Gobelins e Supinfocom, a França está realmente em estado de graça no tocante a animações. Dá uma satisfação muito grande ver a qualidade incrível das obras dos alunos destas escolas mas, também, uma certa tristeza em ver que, no Brasil, a animação ainda não é encarada com a mesma seriedade que na Europa.

Enfim, divagações à parte, "Dum Spiro" é um curta muito divertido, e uma bela homenagem às antigas animações de Chuck Jones e companhia.


FATHER AND DAUGHTER

Se os dois primeiros curtas analisados nesta postagem são uma diversão despretensiosa, a coisa muda de figura com "Father & Daughter", belíssimo drama escrito e dirigido pelo holandês Michaël Dudok de Wit. Uma co-produção entre Holanda e Grã-Bretanha, "Father and Daughter" foi o vencedor do Oscar de Melhor Curta de Animação em 2001, além de várias outras premiações importantes como o Anima Mundi (Brasil), BAFTA (Grã-Bretanha) e Annecy (França).

Um pai se despede da filhinha à beira de um cais, sai remando em um pequeno bote, mas nunca mais reaparece. O tempo segue, as estações do ano vão e vêm, e a garotinha vai tocando a vida. Ela cresce e passa por todas aquelas situações comuns na existência da maioria das pessoas (amizades, namoros, casamento, etc), mas a saudade do pai permanece em todos os momentos. Sempre andando de bicicleta, volta e meia ela retorna ao local de onde seu pai zarpou, na esperança de reencontrá-lo novamente.

"Father and Daughter" utiliza uma técnica de aquarela inspirada nas artes chinesa e japonesa, lembrando um pouco o trabalho visual de várias obras de Te Wei. Usando constantemente um jogo de luz e sombras para causar um forte contraste entre os objetos, "Father and Daughter" possui uma animação sutil, detalhada e muito bem feita, na qual até mesmo os reflexos em poças d'água são realizados com perfeição. Não há nenhum diálogo ao longo de toda a obra, que tem como pano de fundo musical uma trilha instrumental melancólica, apenas com acordeon e piano.

A idéia do ciclo da vida como um eterno retorno está presente em alguns detalhes, como as bicicletas onipresentes e suas rodas que não param nunca de girar. Há ainda a variação de idade das pessoas que se cruzam de bicicleta em caminhos opostos. No início, a garotinha cruza com uma senhora, a coisa vai se invertendo aos poucos rumo ao final, quando ocorre praticamente o inverso do início, como se os idosos partissem para dar lugar aos jovens, que também envelhecem... e o ciclo se repete "ad infinitum".

Uma obra-prima incontestável, com um lindo final que permanece na memória.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ano Hi Mita Hana no Namae o Boku-tachi wa Mada Shiranai (TV)


Alternativos: AnoHana, anohana: The Flower We Saw That Day
Ano: 2011
Diretor: Tatsuyuki Nagai
Estúdio: A-1 Pictures
País: Japão
Episódios: 11
Duração: 23 min
Gênero: Drama / Romance / Sobrenatural


Quem conhece bem minhas resenhas sabe que costumo ficar com o pé atrás quando algum anime vira, de uma hora pra outra, a "sensação do momento" ou "o melhor anime de todos os tempos". E apesar dos animes exibidos no bloco "noitaminA" da Fuji TV raramente decepcionarem, resolvi assistir "AnoHana" com um certo receio, pois temia que pudesse se repetir a mesma coisa que aconteceu com "Kimi ga Nozomu Eien". Felizmente, no caso de "AnoHana" os elogios são mais do que merecidos.

Jinta Yadomi é um adolescente recluso, um "hikikomori", que largou a escola e passa os dias fechado em casa, navegando pela internet e jogando videogames. Jinta perdeu a mãe quando criança e, desde então, mora sozinho com o pai. Quem vê o rapaz nesta situação não imagina como a situação era diferente na infância, quando ele era o líder de um grupo de seis amigos que formavam o "Super Peace Busters". Além do próprio Jinta (chamado de Jintan à época), o grupo ainda contava com o energético Poppo (Tetsudou Hisakawa), a insegura Anaru (Naruko Anjou), o analítico Yukiatsu (Atsumu Matsuyuki), a tímida Tsuruko (Chiriko Tsurumi) e a alegre Menma (Meiko Honma), todos unidos no objetivo de promover a paz mundial (!) Mas uma tragédia ocorrida com Menma acaba afetando o grupo de forma indelével, causando a separação dos amigos e gerando traumas e sentimentos de culpa em todos.

Num dia quente de verão, Jinta acha que está tendo alucinações ou um colapso nervoso por causa do stress, pois tem certeza que está vendo e ouvindo Menma dentro de sua própria casa. Mas como o espírito da garota poderia estar ali, interagindo apenas com ele, e mais importante ainda, por que Menma resolveu aparecer assim, do nada, tanto tempo após a tragédia ocorrida na infância? Menma, com o mesmo espírito energético mas, agora, com a aparência de uma adolescente, diz que precisa realizar um desejo que ela ainda não sabe qual é. A única coisa da qual tem certeza é que o desejo só se realizará com todo o grupo novamente reunido, e dependerá da ajuda de Jinta para que isto aconteça.

"AnoHana" foi realizado por praticamente a mesma equipe responsável por "Toradora!", mas por se tratar de uma série do "noitaminA", possui uma abordagem mais adulta e dramática, apesar dos muitos momentos hilários espalhados ao longo da série. E enquanto "Toradora!" foi adaptado do mangá homônimo, "AnoHana" é uma obra original para a TV criada pela roteirista Mari Okada: só posteriormente foi lançado um mangá baseado no anime.


O desenho de personagens de Masayoshi Tanaka merece destaque, pois cada um dos personagens principais possui traços faciais muito particulares, nos quais apenas os olhares já são suficientes para revelar a verdadeira personalidade dos mesmos. Isto é fundamental para o sucesso da obra, já que o excelente roteiro aborda constantemente a questão das "máscaras" que usamos no dia-a-dia, tentando ocultar nosso verdadeiro "ego" e os problemas e traumas que o acompanham. O riso excessivo escondendo a tristeza, a agressividade dissimulando o desespero, a futilidade encobrindo a insegurança. Vidas e famílias destruídas por uma tragédia, fato agravado justamente por estas máscaras, que impedem um enfrentamento sincero dos problemas.

"AnoHana" é embalado na maior parte do tempo por uma bela e melancólica música-tema tocada num piano, e aborda de forma bem realista os efeitos psicológicos devastadores causados pela morte de Menma. O fato dos personagens serem todos cativantes e muito bem delineados torna a sua jornada ainda mais emocionante e dolorosa. Ainda que Poppo pareça ser alegre e efusivo demais, ou Yukiatsu pareça frio e cruel em excesso, tudo é perfeitamente justificável pela questão já mencionada das "máscaras".

Os comentários acima podem dar a impressão que "AnoHana" é uma série muito pesada e baixo astral, mas verdade seja dita, a narrativa consegue equilibrar muito bem o drama e o humor, segurando um pouco a barra quando a coisa ameaça descambar para o dramalhão. "AnoHana" consegue mexer direitinho com as emoções do espectador, seguindo num "crescendo" emocional constante até seu final que, digamos, é capaz de fazer até a Pedra da Gávea chorar. Por isto, pode parecer estranho dizer que o ponto fraco de "AnoHana" é justamente o seu final, pois justamente aqui o roteiro perde o equilíbrio alcançado em toda a série e, em vários momentos, apela para os choros desesperados e gritos efusivos para causar comoção. A história já é forte o suficiente para amolecer o coração de qualquer um, tornando desnecessário este ataque demolidor às emoções do público que, contraditoriamente, acaba tirando um pouquinho da força do encerramento.




"AnoHana" faz jus à fama que desfruta entre os fãs de animes. É uma obra tecnicamente irrepreensível, com uma qualidade de animação excelente para uma série de TV, mas que se destaca mesmo no que é mais importante: uma história forte, emocionante e muito bem contada, protagonizada por um grupo de personagens que custarão a sair de sua memória. Fica agora a ansiedade para o lançamento do longa-metragem em 2013, que mostrará a história sob o ponto de vista de Menma. Preparem os lenços e os baldes!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Curtas sobre Curtas #02


Dando sequência à recém-criada seção "Curtas sobre Curtas", três pequenos textos sobre curtas-metragens de animação da Dinamarca, Austrália e EUA.


THE SAGA OF BIORN

Excelente animação em CGI criada por alunos da escola dinamarquesa The Animation Workshop. Assim como na ESMA Montpellier (França), os alunos do último ano do curso de animação da "TAW" produzem curtas que, na maioria das vezes, possuem um nível de profissionalismo assombroso. em todos os aspectos.

Biorn é um velho viking com um passado cheio de glórias, fazendo sua derradeira jornada em busca de um oponente de valor, para que possa encontrar sua morte de uma forma digna. Só assim ele poderá entrar em Valhalla, salão dos deuses nórdicos e o lar perfeito para um verdadeiro guerreiro. Do contrário, viverá no tédio eterno de Helheim, reino daqueles que morreram sem glória, doentes ou velhos. Mas à medida em que o tempo passa, esta missão aparentemente simples vai se complicando cada vez mais. Estaria o velho Biorn condenado a uma morte inglória?

Com cenários de cores mais chapadas e personagens de traços angulares e cartunescos, "The Saga of Bjorn" apresenta uma quantidade enorme de mortes hilárias numa narrativa fluida, coesa e bem humorada, que vai se encaminhando para um final inesperado e, por isto mesmo, impecável.

(Obrigado ao Heider Carlos pela sugestão desta obra)


THE PASSENGER

Chris Jones passou seis anos criando, sozinho, esta obra de clima simultaneamente sombrio e engraçado. "The Passenger" acompanha um homem absorto na leitura de um livro, enquanto caminha pela rua em meio a uma ventania que anuncia a tempestade que se aproxima. Tenso, sentindo que há algo à espreita, o homem acaba pegando um ônibus assim que a chuva começa, mas mal poderia imaginar que um simples peixinho dourado viraria o seu dia de cabeça para baixo.

Impressionante perceber que esta animação foi inteiramente feita por uma só pessoa, já que toda a parte sonora e visual possui um acabamento muito profissional. A ambientação sombria e acinzentada é verdadeiramente aterrorizante, e os personagens trêmulos, de olhos expressivos e arregalados, aumentam ainda mais a sensação palpável de tensão no ar.

Com um clima que lembra muito alguns episódios da série "Além da Imaginação", "The Passenger" possui uma história simples, mas o visual ameaçador que permeia toda a obra e a reviravolta rumo ao final são motivos mais do que suficientes para recomendar esta animação a todos. Uma pena que, desde o lançamento de "The Passenger" em 2006, o australiano Chris Jones não lançou nenhuma nova obra de sua autoria.


ONE RAT SHORT

Ratos lutam pela sobrevivência no metrô de NY. Em meio a esta confusão em busca de alimentos, um pacote quase vazio de Cheetos sai voando por entre os vagões e cai um pouco afastado da estação. O cheiro desperta um rato negro que, quase hipnotizado pelo aroma, vai atrás do pacote e se envolve em situações que não apenas colocam sua vida em risco mas, ainda, fazem-no vivenciar um tipo de sentimento até então inédito em sua vida.

De cara, chama a atenção a excelência técnica desta animação dirigida por Alex Weil e premiada no SIGGRAPH 2006. Os ratos são muito realistas, desde a movimentação até os detalhes dos pêlos e da respiração, e ainda que apresentem comportamentos levemente antropomorfizados em alguns momentos, no geral parecem ratos de verdade tentando sobreviver em meio a perigosas ameaças.

Com situações que remetem aos campos de concentração nazistas, incluindo uma analogia entre código de barras e tatuagens de identificação, "One Rat Short" possui um certo clima melancólico do início ao fim. É uma excelente obra, mas que deixa o espectador com um aperto no coração.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Curtas sobre Curtas #01


Entre os vários motivos pelos quais resolvi iniciar esta empreitada solo no Glodosbora, um dos principais é a liberdade de poder escrever sem precisar me prender a uma determinada estrutura. No Animehaus até foi possível quebrar isto um pouco, quando começamos a falar de outros tipos de animações fora do universo anime, mas em termos de estruturas de resenhas e artigos, entre outras coisas, não dava muito para sair do formato utilizado. Além disto, por mais que seja legal uma resenha super bem embasada e completa, às vezes é complicado escrever um texto complexo sobre um curta metragem de 3min, por exemplo. Melhor seria um pequeno artigo falando de 2, 3, 4 ou mais obras, só para dar uma idéia geral sobre as mesmas, para que os leitores possam, ao menos, tomar conhecimento de sua existência e, claro, saber se vale a pena ou não assisti-las.

Tendo isto em mente, inauguro hoje a seção "Curtas Sobre Curtas", que consistirá de postagens falando sobre determinados curtas-metragens, de animação ou não, de forma um pouco mais simplificada do que a normalmente utilizada nas resenhas-padrão do Animehaus. Para começar, três "pequenas grandes obras" da animação, provenientes da França, Espanha e Polônia.


REPLAY

Curta de 9min de duração, criado em 2007 por 3 alunos da fantástica ESMA (Ecole Supérieure des Métiers Artistiques), localizada em Montpellier, França, e famosa pelas fantásticas animações de fim de curso de seus alunos, que colocam no bolso grande parte das animações ditas "profissionais" que existem por aí.

"Replay" se passa num local desolado na Rússia, no qual é impossível andar pela superfície sem máscaras contra gás e óculos de proteção, sob pena de morte imediata. É neste ambiente que vivem, em um abrigo subterrâneo devidamente protegido, a jovem Lana e o garoto Theo. Lana sempre sobe à superfície para recolher objetos largados pelas ruas de uma verdadeira "cidade-fantasma", buscando ganhar algum dinheiro com a venda posterior dos mesmos. Théo nasceu neste ambiente mortal e sempre viveu no subterrâneo, nunca tendo conhecido nenhuma outra pessoa além de Lana, e só tem permissão para subir à superfìcie acompanhado pela garota. Por esta razão, sua ansiedade é sempre grande quando Lana volta da superfície, pois fica louco para ver os "tesouros" que ela trará para o subterrâneo.

Certo dia, entre os objetos recolhidos por Lana, encontra-se um gravador contendo sons captados no dia-a-dia normal da cidade (buzinas, conversas), enquanto a vida ainda pulsava por lá. Theo fica encantado ao ouvir a conversa de crianças brincando, quer ficar com o gravador de qualquer maneira, mas Lana diz que venderá o aparelho, pois poderá ganhar um belo dinheiro com o mesmo. Sem conseguir tirar aqueles sons da cabeça, resta saber até que ponto o garoto iria para manter a posse do aparelho e procurar saber um pouco mais sobre a história por trás daqueles sons.

Em termos visuais, "Replay" não é tão impressionante quanto outras obras produzidas na ESMA, apesar de ainda ser muito bem feito. A cidade abandonada, em especial, lembra muito Pripyat, na Ucrânia, evacuada às pressas após o acidente nuclear de Chernobyl em 1985. Mas o mais marcante em "Replay" é a qualidade da narrativa, sendo palpável a sensação de desespero de Theo em querer vivenciar um tipo de existência que a dura realidade simplesmente não permite mais.

Com um final melancólico e, de certo modo, agridoce, "Replay" é uma boa porta de entrada para quem ainda não conhece as excelentes animações criadas na ESMA.


LA DAMA Y LA MUERTE

Animação espanhola produzida por Antonio Banderas e indicada ao Oscar 2010 como Melhor Curta de Animação, "La Dama y La Muerte" se passa numa fazenda, em um ambiente desolado e sombrio. Ao som de um velho gramofone, uma idosa aguarda ansiosamente a chegada da Morte, para que possa se reencontrar com o falecido marido. Quando tudo parece resolvido e a senhora está prestes a entrar no reino dos mortos, um médico bonitão e que se acha "o cara" acaba trazendo-a de volta à vida. Inicia-se uma luta feroz, hilária e surreal entre a Morte e o médico (acompanhado de suas enfermeiras gostosas) pelo destino da pobre senhora, que é jogada de um lado para o outro como um saco de batatas.

Tecnicamente, "La Dama y La Muerte" é impecável, uma animação em CGI de excelente qualidade e com personagens muito expressivos e cartunescos. O ritmo da animação é alucinante, lembrando um pouco as peripécias exageradas de Scrat nos longas-metragens de "A Era do Gelo". Não há nenhum diálogo inteligível, apenas gritos e grunhidos de satisfação e raiva, de acordo com o andamento da disputa ferrenha entre a "morte gulosa" e o "Dr. Queixudo".

"La Dama y La Muerte" não traz super questionamentos filosóficos nem nada do tipo. É uma obra divertida e de excelente qualidade técnica, que passa voando e ainda conta com um final sensacional.


PATHS OF HATE

Claro que não dava para iniciar a seção de curtas sem falar do Platige, hehehe. "Paths of Hate" começou a chamar a atenção assim que pintou seu primeiro trailer, mostrando dois aviões em combate em sequências animadas de tirar o fôlego, com um visual semelhante a "comics" num ambiente 3D. Restava saber se a obra completa faria jus ao "hype" tremendo causado pelo trailer em questão.

Dirigida por Damian Nenow (The Great Escape), "Paths of Hate" já começa em meio a uma ensandecida batalha aérea na II Guerra Mundial entre um piloto inglês em seu Spitfire, e outro alemão num Messerschmitt, que usam de todos os recursos possíveis para matar o seu oponente. Pequenos fragmentos de imagens mostram que a religião, a pátria e os entes queridos são motivações por trás da fúria bestial que move os dois homens. Com olhares sangrentos e sedentos de morte, os homens vão perdendo completamente sua humanidade, única forma pela qual poderão encerrar, de alguma maneira, esta batalha feroz. E neste processo, vão deixando os tais "caminhos de ódio" para trás, caminhos estes que remontam aos primórdios da história e sempre resultam em horror, morte e destruição.

Se o trailer de "Paths of Hate" já impressionava, a obra completa é de cair o queixo. Usando cores chapadas e com traços de sombreamento imitando histórias em quadrinhos, a animação usa na maior parte do tempo uma câmera nervosa e irregular, como se fosse controlada por um ser humano, aumentando ainda mais o realismo das batalhas. A sensação de profundidade no ambiente impressiona, especialmente em meio às nuvens, e a movimentação corporal e facial dos pilotos é algo de outro mundo. Podem acreditar quando eu digo que vocês nunca viram nada parecido com "Paths of Hate": o estilo é realmente único.

"Paths of Hate" é um obra do Platige um pouco mais conhecida em nosso país, por ter sido eleita a Melhor Animação no Anima Mundi 2011 pelo júri profissional. Vencedora ainda de vários outros prêmios ao redor do mundo (Annecy, Comic-Con, SIGGRAPH), "Paths of Hate" tornou-se minha animação preferida do Platige, gerando ainda uma ansiedade prazerosa para ver como será a próxima obra dirigida por Damian Nenow, "Another Day of Life". Baseada no livro de Ryszard Kapuscinski, autor do excelente "Império", "Another Day of Life" será um mistura de animação e documentário e, muito provavelmente, o primeiro longa-metragem produzido pelo Platige.